domingo, 27 de janeiro de 2008

09 de julho

Ela subia a ladeira com o cigarro aceso entre os dedos, tragando a cada 4 ou 5 passadas, em um desfavor aos pulmões já fatigados pelo esforço de manter as pernas sustentando o corpo e indo para cima, para cima.
Estava naquela fase do “tentando parar de fumar”, coisa de persistente, alguém na verdade um pouco fracassado pelo fato de precisar largar o vício e ao mesmo tempo não conseguir fazê-lo.
A ansiedade de carregar no peito o peso das horas que não passavam a fazia manter essa postura desesperançada e qualquer um que passasse não perceberia em seus olhos a motivação para continuar a ir em frente, ou a vontade de qualquer coisa.
Parou na esquina e se apoiou no poste. Arfava; colocou uma mão no joelho direito enquanto a outra se agarrava ao concreto. A bituca foi ao chão.
Virou os olhos para cima, não viu luz nem inspiração, somente o sol árido sendo encoberto por uma nuvem passageira e voltando logo a arder na retina.
Estava tudo tão seco, a sede deixava a boca seca, a respiração ofegante secava as vias respiratórias e a poluição não ajudava muito. Apesar disso os olhos pareciam úmidos, e finalmente ficaram realmente úmidos quando num dos apartamentos do prédio baixo na quadra em frente alguém começou a ouvir i can get along without you very well e a voz da Billie tornou-os marejados.
Muitos têm muita raiva de mim, mas pelo menos alguém me gosta o suficiente para fazer com que hoje não esteja chovendo, não seja primavera e não tenha alguém rindo nesta rua.
E a rua estava vazia. Atipicamente sem carros, sem mendigos, sem madames passeando com cachorrinhos. Só havia o fedor lembrando a sujeira e a merda daquilo que passara por ali; gente e bichos, seres humanos mais animais que muitos dos últimos. Só ventava a solidão. Seca e quente, brilhando no começo da tarde.
Sabrina vestia como um fardo o casaco inconveniente. O pior era o fato de ele a vestir muito bem, parecia até ter sido feito sob medida.
Alguém parecido comigo morreu sabendo que eu iria precisar dele, pensou ela no dia em que achou a peça no brechó. Hoje carregava em seus bolsos internos, vários, uma quantidade enorme de pequenos frascos de vidro cheios de um líquido vermelho e viscoso. Era toda a culpa daquela mulher, guardada com tamanho esmero, como algo de que se gosta.
Get along
Era uma coisa estranha, não chegava a ser engraçado devido a sua fatalidade. Guardar o erro dos outros como se fossem seus porque no fim as pessoas vão embora, e você fica – até parece óbvio, mas nem sempre. E você tem que continuar gostando de si mesmo, por isso é melhor ter apenas as coisas ruins como lembrança para continuar gostando de si mesmo. Sentir-se melhor do que elas. Ser melhor do que elas e como brinde não sentir saudades.
O problema é a saudade do que parecia verdadeiro, então é preferível ficar na falsidade do processo. Sabrina guardava e carregava cada gota de sangue derramada a cada despedida – e foram tantas.
Algumas despedidas nem existiram, eram mais morte e desaparecimento, já que nessas vezes os cadáveres não tinham cara-de-pau, muito menos consideração, suficiente para dizer adeus.
Era isso o que ela costumava fazer: no momento seguinte à despedida, ou ao vazio da ação inexistente, sozinha no quarto enquanto a cama permanecia desfeita, ela ficava em silêncio no escuro, ouvindo o barulho dos carros lá fora, pensando o quanto estava alheia àquilo tudo antes de começar a encher aqueles malditos vidrinhos. Cada um deles poderia ter em si o nome de alguém gravado, pois o que continham já não era mais ela somente. Era o que escorria de um corpo cuja alma não fizera verter o próprio sangue. Era o pedaço do outro que fica e que precisa sair, numa espécie de exorcismo.
without you
Então ela ia dormir no sofá da sala esperando a noite passar. Logo a manhã faria renascer aquele quarto onde só entraria de novo quando o ar e o cheiro alheio tivessem saído pela janela, para pegar umas roupas limpas e continuar a sobreviver.
Very well.
Na esquina ela perdeu as forças, sua mão deslizou pelo apoio e as costas bateram na calçada. Os frascos se quebraram, no entanto não feriram a pele, e o casaco começou a verter algo vermelho e viscoso.
Sabrina começou a rir da ironia daquele momento. O riso virou gargalhada, ecoou pela rua vazia, seu abdome contraía no gozo dos dentes a mostra. O riso virou tosse porque ela gargalhava e o ar lhe faltava, a cabeça pendia um pouco para frente e logo voltava a se deitar sem forças, rindo com o que a fumaça podia lhe proporcionar. Ao mesmo tempo em que não era ela quem sangrava, era o seu próprio sangue que escorria pela calçada e ia parar na sarjeta. Sorria, ria, tossia.
Após um tempo em que a música já havia parado de tocar, enquanto a ação continuava mecânica, ela percebeu como fazia barulho na rua deserta, como tudo era cômico, como ela era cômica mas não chegava a ser ridícula. Quando a graça passou, ela respirou profundamente. Olhou para o sol insistente, a única coisa exatamente a sua frente. Sentou-se devagar e sentiu as costas molhadas. Escalando o poste, pôs-se de pé e recomeçou a subir a ladeira.

Preciso parar de fumar.

Um comentário:

lucas koester disse...

anticlimax
porém extremamente surpreendente
assim como nossas conversas em mesas de botcos perdidos na noite...


thanks for the ride girl, all the rides.