Bom dia, doutor.
Bom dia, seu Jaime.
E já ia entrando pelo saguão do prédio quando
Ah! Seu Jaime,
me lembrei de avisar sobre a vinda de Eugênia.
Virá uma garota aqui, hoje.
Uma garota. Quando era eu, ficava mais fácil para qualquer um caracterizar o visitante. Porque, sempre, quando vem alguém aqui no prédio eu digo
o fulano: cara, boca, altura, peso
e logo fica fácil entender de quem se trata – como outra pessoa falando sobre mim, é uma situação descritível
Seu alguém! Virá um cara aqui hoje. Já quase de idade, você vai perceber pelas entradas no cabelo, com o nariz adunco, pele meio bronzeada (tratando-se do que um dia fora branca mas sofrera as conseqüências dos anos andados nessa terra tropical).
Porém, Eugênia. Ela era algo assim: mais por dentro que por fora. Na verdade, eu nem bem sabia qual era a cor dos seus olhos ou ao menos me importava qualquer coisa sabê-lo. O que merecia atenção e significava era apenas sentir quando ela me olhava. Sentir que ela sim sabia qual era a cor dos meus olhos e poderia muito bem pinta-los como Modigliani, porque ela enxergava a minha alma. Assim ela me via sem roupa, todas as vezes despido; e ela também não diria nada além do que realmente me pertence, coisas do tipo além da irregularidade da minha arcada dentária ou da cor das minhas meias.
Mas eu, pior, não poderia dizer o comprimento dos seus cabelos. E o fato de eu conhecer que eles cheiravam a frutas cítricas (nunca reparei na marca, mas o shampoo deveria ser aquele da propaganda, de frasco roxo com essência cítrica) não faria eu me sentir melhor. Eu estou culpado porque se espera de todo amante saber muito bem da coisa amada, até, ou pelo menos, da capa, o grande toque final que agrada aos olhos. Na verdade não me culpo tanto por esse motivo superficial, mais porque Jaime precisa de uma descrição física.
Mas Eugênia não era como a última mulher que pegou esse elevador (que agora olha frio e estático esperando eu me virar após a ressalva começada e interminada, reticente num ponto entre as palavras “garota”, “aqui”, “hoje” e o pensamento transitório e indeciso) e tocou a minha campainha achando que uma noite poderia se tornar uma semana, um mês, uma vida, duas e outras por nascer. Ela não era como a Laura dos cabelos, olhos e pele claros, facilmente descritível, facilmente cansável. Insossa, insípida, praticamente incolor, enquanto Eugênia era um arco-íris. Eugênia - eugênia.
Em vez de água, ela era vinho. Algo como uma bebida forte de sabor adocicado, de uvas colhidas com amor sob o orvalho e amassadas com os pés descalços. Os anos em conserva, passados em processo de fermentação, não pesavam em seu espírito.
A minha Eugênia era muito leve e tanto que nem ao menos me pertencia. Escapava aos dedos, fluía em sopro. Era como um livro do García Márquez, meu preferido, que não poderia ficar na estante de universal que era.
Logo eu percebi que a moça não viria mais, ela tudo era, hoje já não é mais.
Então, seu Jaime. Como eu ia dizendo. Não vem ninguém.
Quando eu peguei na maçaneta fria do ferro do elevador, enquanto o porteiro me olhava pela câmera interna com olhos perplexos que eu apenas imaginava, pois não me alcançavam, e me via louco, eu pensei.
Ela não vem, não assim.
Talvez se o vento soprar pela tarde, sua alma venha ao sétimo andar. Se hoje eu não me lembrava da sua fisionomia era porque a morte levara embora a carne de Eugênia há anos e deixara comigo esse sentimento de saudade cheio, enchendo o meu vazio. Então eu transbordava vontade de tê-la e saía falando dela por aí, pois somente assim eu tinha Eugênia de novo, por entre meus lábios.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
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Um comentário:
no words can describe how I felt
chills down my spine, and those kind of things!
continuemos como seu jaime com olhares perplexos por aqui...
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